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Erros comuns em projetos de cabine primária – média tensão

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05 fev,2026

Em muitos empreendimentos, o projeto da cabine de entrada de média tensão é tratado como uma formalidade normativa, uma etapa burocrática a ser cumprida. Na prática, essa abordagem superficial é uma das principais causas de reprovação pelos órgãos concessionários, retrabalho em campo, aumento de custos e, o mais grave, riscos operacionais que podem se estender por toda a vida útil da instalação.

O cerne do problema raramente está na ausência de normas, mas na sua aplicação descontextualizada e na falta de integração entre os diversos estudos elétricos necessários. Este artigo destaca os erros mais recorrentes observados em projetos executivos de cabine primária, baseando-se em situações reais que comprometem a segurança, a confiabilidade e a eficiência do sistema.

Aplicação literal da NBR 14039 sem análise crítica

A ABNT NBR 14039 é um documento fundamental que estabelece requisitos mínimos de segurança para instalações elétricas de média tensão. Contudo, um erro recorrente é tratá-la como um checklist autossuficiente para a elaboração do projeto executivo.

Sem fugir à regra, a NBR 14039 te diz o que fazer, mas não como fazer, de tal modo que não pode (não pretende!), contemplar todas as particularidades de cada instalação, tais como: operações específicas, logística de manutenção, planos de expansão futura e, principalmente, as exigências complementares (e muitas vezes mais restritivas) das concessionárias locais. Projetos que se limitam ao atendimento literal da norma frequentemente apresentam lacunas técnicas que só se revelam na fase de aprovação ou durante a operação, gerando atrasos e retrabalhos custosos. 

Estudo de curto-circuito: premissas inadequadas ou imprecisas

O estudo de curto-circuito é a base para o dimensionamento e a especificação da capacidade de interrupção de disjuntores, da estabilidade térmica e dinâmica de condutores, barramentos e transformadores, e dos ajustes dos relés de proteção. Erros nesta fase têm um efeito cascata em todo o projeto.

As falhas mais comuns incluem:

  • Utilização de valores genéricos ou desatualizados para o nível de curto-circuito no ponto de conexão, sem verificação com a concessionária.
  • Desconsideração da contribuição de fontes próprias, como geradores, usina fotovoltaica ou motores de média e grande potência, que aumentam a corrente de falta.
  • Adoção automática de fatores de impedância padronizados para transformadores e cabos, sem considerar as reais características dos equipamentos especificados.

Falhas como essas podem levar a um dimensionamento inadequado da capacidade de ruptura dos equipamentos, comprometendo a segurança e a confiabilidade do sistema.

Tratamento da seletividade e coordenação como etapa acessória

A coordenação e seletividade não são luxos, mas um requisito fundamental para a continuidade operacional. Vale lembrar que a coordenação é o critério de ajuste dos equipamentos, já a seletividade é o comportamento desses equipamentos durante uma falha. Portanto, um erro recorrente é negligenciar a análise de coordenação de proteções para a fase de comissionamento, ou adotar ajustes padronizados (“de catálogo”) para os relés.

Uma coordenação mal elaborada resulta em:

  • Desligamentos em cascata: uma falta na baixa tensão desliga indevidamente o disjuntor de média tensão, paralisando cargas críticas.
  • Falta de seletividade: a não atuação seletiva amplia o tempo de desligamento, aumentando os danos aos equipamentos e o risco para as pessoas.
  • Zonas de proteção

É crucial realizar um estudo integrado que contemple as curvas de atuação dos dispositivos de proteção a montante e a jusante da cabine/subestação (como o disjuntor geral do QGBT e religadores da própria concessionária), considerando todos os cenários plausíveis de falta.

Dimensionamento inadequado por falta de estudos complementares

O dimensionamento inadequado de equipamentos é, em geral, sintoma da ausência de estudos elétricos consistentes ou da sua realização de forma isolada.

  • Subdimensionamento: compromete a vida útil dos equipamentos por operação no limite, causa atuações indevidas de proteção e pode levar a falhas catastróficas.
  • Superdimensionamento: visto erroneamente como “conservador”, eleva o custo de investimento de forma desnecessária, pode dificultar a coordenação de proteções (devido a correntes de falta menores em relação à capacidade do equipamento) e reduz a eficiência do sistema.

 O ponto equilíbrio apenas é alcançado com base em dados reais, provenientes não apenas do estudo de curto-circuito, mas também de um estudo de fluxo de carga que determine as correntes de operação normais e contingenciais.

Falta de alinhamento prévio e documentação incompleta para a concessionária

Cada distribuidora possui normas complementares, critérios técnicos internos, preferências por esquemas de proteção e medição, e exigências específicas de documentação. Ignorar esta particularidade é um dos caminhos mais seguros para o retrabalho.

Desenvolver o projeto sem um diálogo técnico inicial com a concessionária frequentemente resulta em:

  • Rejeição do memorial de cálculo por insuficiência de dados.
  • Exigência de modificação no esquema de proteção ou medição.
  • Atrasos críticos no cronograma de liberação para ligação.

O projeto deve ser iniciado com a compreensão plena destas exigências externas.

Projeto isolado, sem integração com estudos complementares essenciais

A cabine de média tensão não é uma ilha. Seu projeto deve ser integrado a outros estudos fundamentais para a segurança global:

  • Estudo de aterramento: deve ser integrado, considerando as malhas de aterramento da cabine, subestações e demais instalações internas e das massas dos equipamentos, para garantir tensões de passo e toque em condição de falta.
  • Análise de contingências operacionais: como o sistema se comporta na saída de um transformador? As proteções atuam de forma adequada?
  • Informações completas: diagramas unifilares, trifilares, relatórios de cálculo e especificações técnicas devem ser completos e coerentes entre si, formando um dossiê técnico robusto para aprovação, montagem, operação, manutenções etc.

 Conclusão técnica

Dessa forma, projetar uma cabine de entrada de média tensão adequadamente vai além do cumprimento de checklists normativos. É um exercício de verdadeira engenharia aplicada que exige:

  1. Conhecimento técnico profundodos estudos elétricos envolvidos.
  2. Senso críticopara aplicar normas e critérios ao contexto real da instalação.
  3. Experiência práticapara antever desafios de operação, manutenção e expansão.
  4. Integração sistêmicade todos os estudos e interfaces (concessionária, baixa tensão, etc.).

A mitigação dos erros descritos não apenas acelera a aprovação e reduz custos, mas, acima de tudo, resulta em uma instalação mais segura, confiável e preparada para o futuro, que é o objetivo final de qualquer projeto de engenharia responsável.

Eng. Willian Mendes

    2 Comentários

    • Guilherme Fagundes

      05/02/2026

      Excelente post. É necessário muita atenção a todos os detalhes desse tipo de projeto, tanto para aprovação da concessionária, quanto para execução bem feita e segurança da instalação. Parabéns.

    • Igor Câmara

      05/02/2026

      Artigo bem escrito e objetivo, com informações e chamadas de atenção importantes para os profissionais! meus parabéns!

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