O crescimento das usinas fotovoltaicas (UFV) de grande porte no Brasil trouxe um desafio técnico que ainda é subestimado: o projeto adequado do sistema de aterramento.
É comum encontrar projetos tratados como se a usina fosse apenas uma subestação ampliada. No entanto, essa abordagem ignora um fator essencial: a dimensão quilométrica da planta altera completamente o comportamento elétrico do sistema de aterramento.
Projetar uma UFV de grade porte exige metodologia própria, modelagem aprofundada e ferramentas adequadas.
Usina fotovoltaica não é subestação ampliada
Subestações possuem malhas de quadrículas mais concentradas, geralmente com algumas dezenas de metros de extensão. Nesses casos, a malha pode se comportar de forma aproximadamente equipotencial em baixa frequência.
Já em uma usina fotovoltaica de grande porte temos:
- Setores distribuídos por centenas de metros
- Milhares de estruturas metálicas interligadas
- Cabos de média tensão subterrâneos interligando eletrocentros
- Anéis perimetrais extensos
- Grandes volumes heterogêneos de solo envolvidos no escoamento de corrente
O resultado é um sistema, incontornavelmente, não-equipotencial. A impedância longitudinal dos condutores passa a influenciar diretamente a distribuição de potenciais. Ignorar esse fenômeno leva a erros e simplificações relevantes na avaliação de segurança de um sistema da ordem de quilômetros.
Qual é a condição realmente crítica?
Muitos associam o aterramento de UFV principalmente à proteção contra descargas atmosféricas. No entanto, do ponto de vista de segurança de pessoas, o evento mais crítico normalmente é a falta para a terra no barramento de média tensão da cabine de conexão, ou alta tensão em subestação coletora.
Essa condição pode provocar:
- Elevação global de potencial (GPR)
- Gradientes elevados no solo
- Tensões de passo e toque significativas, acima dos níveis toleráveis
- Transferência de potencial pelas blindagens de cabos de média tensão
Em sistemas extensos, essa elevação não se distribui uniformemente. As regiões próximas à subestação tendem a concentrar os maiores gradientes, tornando-se áreas prioritárias na análise.
Modelagem do solo: superficial não é suficiente
Um dos erros mais comuns é basear o projeto em sondagens rasas e poucas medições.
Em sistemas de grande extensão, o volume de solo envolvido é muito maior do que em subestações convencionais. A modelagem deve considerar:
- Distribuição espacial das medições
- Investigação de camadas superficiais e profundas
- Aberturas compatíveis com a dimensão da planta
- Representatividade estatística do terreno
Modelos simplificados podem gerar:
- Subestimação do GPR
- Avaliação incorreta das tensões de toque e passo
- Falsa sensação de segurança
Em sistemas quilométricos, simplificação excessiva deixa de ser conservadora e passa a ser imprecisa e arriscada!
A não-equipotencialidade da malha
Em malhas extensas, a impedância do próprio condutor influencia a distribuição de corrente.
Softwares que assumem condutores ideais (impedância nula) tendem a produzir resultados otimistas, especialmente em:
- Mapeamento de gradientes de potencial
- Avaliação da região próxima à subestação
- Análise da cerca perimetral
Para plantas de grande porte, a modelagem deve considerar:
- Impedância própria e mútua dos condutores
- Segmentação realista da malha, conforme o layout da UFV
- Interação com estruturas acima do solo
- Transferência de potencial via cabos blindados
A diferença entre considerar ou não esses fatores podem alterar significativamente o resultado da simulação.
A cerca: ponto crítico do projeto
No interior da usina, trata-se de ambiente controlado, com acesso restrito e uso de EPI. Já o perímetro externo representa a condição mais crítica, pois:
- Pode haver contato por pessoas não qualificadas
- O solo externo pode ter características distintas
- As quinas da cerca concentram gradientes
Em solos de alta resistividade, os maiores gradientes frequentemente aparecem nos vértices da cerca — justamente onde o contato é mais provável.
A definição sobre:
- Interligação ou não da cerca à malha principal
- Uso de hastes independentes
- Seccionamento em trechos paralelos à rede de média tensão
deve ser técnica e não suposta e apenas executiva.
Otimização técnica versus excesso de condutores
Sistemas de aterramento de UFV consomem grandes volumes de material. Dois erros comuns são frequentemente cometidos:
- Superdimensionamento por via conservativa; e
- Subdimensionamento por via da economia
No entanto, o equilíbrio técnico é imperioso e depende de:
- Um modelo de solo bem ajustado com uma boa base de dados
- Corrente crítica bem definida
- Simulação em software adequado
- Análise setorial da planta
O objetivo não é simplesmente tornar a malha mais robusta, mas sim dimensioná-la com base em critérios técnicos consistentes, alocando material onde ele efetivamente contribui para o desempenho do sistema.
Conclusão
O projeto de aterramento de uma usina fotovoltaica de grande porte exige abordagem própria e metodologia específica.
As grandes dimensões físicas impõem três requisitos fundamentais:
- Modelagem geoelétrica profunda e representativa
- Software capaz de considerar a não-equipotencialidade
- Avaliação criteriosa das regiões críticas, especialmente o perímetro
Quando tratado como uma simples subestação ampliada, o sistema pode apresentar falhas conceituais graves.
Em contrapartida, quando projetado com base em modelagem consistente e simulação adequada, o sistema de aterramento torna-se um elemento robusto, seguro e tecnicamente otimizado da planta geradora.






1 comentário
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Guilherme
10/02/2026Excelente artigo e observações muito pertinentes. Parabéns.