Quando se projeta um sistema de aterramento para uma Usina Fotovoltaica (UFV) de grande porte, a atenção costuma recair sobre cabos, conectores e hastes. No entanto, o componente mais crucial — e, ironicamente, menos visível — é o próprio solo. O desempenho de todo o sistema de proteção depende diretamente do quanto compreendemos o meio em que ele está inserido. E a chave para desvendar esse segredo está na qualidade das medições de resistividade do solo.
Entendendo a escala do desafio
UFVs não são projetos convencionais. Elas se estendem por quilômetros, e seu sistema de aterramento deve abranger volumes expressivos de solo, tanto em superfície quanto em profundidade.
As normas ABNT NBR 7117-1:2020 e IEEE Std 2778:2020 destacam que a profundidade relevante do solo para o projeto é função direta do tamanho da malha. Em usinas de grande porte, investigar apenas os primeiros metros não é suficiente: é necessário prospectar camadas a dezenas — ou até centenas — de metros de profundidade.
Esse aspecto é particularmente crítico em regiões como o Nordeste brasileiro, onde solos superficiais secos e de altíssima resistividade podem encobrir camadas profundas de água salobra, com baixa resistividade. Essas camadas são determinantes para o bom desempenho do aterramento. Projetar considerando apenas as camadas rasas é um erro grave, que compromete tanto a segurança quanto a performance.
Da medição ao modelo: a armadilha da “solução exata”
O processo de criar um modelo geoelétrico — perfil das camadas do solo com suas respectivas resistividades e profundidades — é um problema inverso. Isso significa que medimos efeitos na superfície (tensões e correntes) para inferir as causas no subsolo.
Esse tipo de problema é inerentemente ambíguo: diferentes modelos de solo podem gerar a mesma curva de resposta na superfície.
Portanto, a precisão do modelo final está diretamente ligada à qualidade e abrangência dos dados coletados em campo.
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- Equipamentos inadequados (como terrômetros comuns, que usam corrente alternada e baixa potência)
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- Espaçamentos insuficientes, que não atingem camadas profundas
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- Sondagens esparsas, que não representam adequadamente a área estudada
Tudo isso resulta em dados pobres e ruidosos.
Quando tais dados são processados por softwares de inversão, o resultado pode ser uma solução matemática “perfeita” — mas geologicamente incorreta. É a chamada ilusão da exatidão: confiar cegamente em um modelo elegante no papel, mas equivocado na realidade.
Boas práticas para uma modelagem confiável
Para evitar armadilhas e obter modelos de solo realmente representativos, algumas práticas são indispensáveis:
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- Equipamento correto: utilizar resistivímetros de corrente contínua (DC) de alta potência, capazes de penetrar em camadas mais profundas e fornecer sinais limpos, mesmo em solos superficiais de alta resistividade.
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- Estratégia adequada: aplicar uma malha de sondagens densa, como a matriz 500 m x 500 m sugerida pela IEEE 2778:2020, e adotar aberturas amplas (até 128 m para o arranjo Wenner), garantindo alcance suficiente em profundidade.
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- Equipe qualificada: contar com profissionais que dominem princípios geofísicos, capazes de avaliar a qualidade dos dados em campo e tomar decisões rápidas para mitigar interferências.
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- Validação cruzada: complementar o modelo geoelétrico com informações adicionais, como dados de sondagens SPT (Standard Penetration Test), que indicam tipo de material e nível d’água. Essa correlação reduz ambiguidades e aumenta a confiabilidade do modelo.
Conclusão
Investir em uma campanha de medições de resistividade do solo de alta qualidade não é custo: é garantia. É a base que assegura que o modelo geoelétrico represente, com fidelidade, a complexidade do subsolo.
Em sistemas destinados a proteger vidas e ativos, trabalhar com suposições ou modelos imprecisos é um risco que não pode ser assumido.
A segurança começa com uma medição bem feita.





